No dia 31 de janeiro, última quarta-feira, o Sobre Jornalismo  entrevistou, pela Web, um jovem escritor que tem muito a nos dizer.
 
Tiago Eurico de Lacerda é de Coronel Fabriciano, leste de Minas Gerais, e estuda Direito na UNILESTE-MG.  Ex-seminarista, e mais do que isso, um jovem engajado em seus trabalhos e objetivos, escreveu recentemente a sua primeira obra, intitulada "Sob a chave do silêncio".
 
Acompanhe abaixo a entrevista, que foi concedida ao nosso colunista Adriano Vinício:

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Adriano Vinício: Tiago, tem-se visto, atualmente, que a juventude possui diversos novos modos de passar o tempo, dentre eles, a Internet. O que você acha dessa nova visão de lazer e o fato de uma pessoa jovem como você poder escrever um livro expressando suas idéias? Não seria um deslocamento temporal de sua forma de lazer?

Tiago Eurico: A juventude, na minha visão, literalmente passa o tempo, o desperdiça e atribui-se essa dedicação exacerbada, on-line, à educação, que nada tem a ver com acesso à internet, tampouco com lazer.
Eu não quero eximir a internet como instrumento de lazer, pois sei que é uma ferramenta muito útil em nosso tempo e dificilmente viveríamos sem ela, mas ela não pode ser a fonte primeira de nossas pesquisas. Uma vez assisti a uma entrevista com Bill Gates e ele disse algo que guardo comigo até hoje: que seus filhos com certeza teriam computadores, mas antes, teriam livros.
 
O motivo por eu ter escrito meu livro foi com certeza a grande influencia literária, as janelas abertas da internet e um bom aproveitamento de meu precioso tempo. Ser jovem é saber viver cada momento e, para mim, escrever é colocar-me em momento de lazer e reflexão. Se as janelas que abro são grandes horizontes, grandes serão minhas reflexões.
 
AV: Nos passe, brevemente, uma visão sobre sua primeira obra, "Sob a chave do silêncio". Quais foram as suas inspirações? Qual a abordagem temática principal que circunda essa produção?

TE: Neste livro eu quero exprimir, além de minhas experiências, o meu ponto de vista acerca de alguns temas, que para mim têm muita relevância se pararmos par refletir.
 
O contexto é sócio-religioso, e abordo problemas como abuso de poder, sexualidade e política interna da Igreja Católica. Não é um livro de auto-ajuda, tampouco de estudos. Optei por escrevê-lo em forma de ficção, pois assim poderia expor com mais liberdade algumas idéias. Minha maior inspiração foi ver nos Estados Unidos o povo clamar por justiça, devido ao abuso que a Igreja os fizeram passar; abuso até mesmo sexual.
 
Famílias são violadas e a Igreja apenas trocava de lugar os infratores, levando o mal a outro lugar, e isso não resolve o problema. 

A abordagem principal do livro é que todos merecem uma segunda chance. Da mesma forma que a Igreja cuida de seus sacerdotes, ela deve cuidar daqueles que são abusados e que sofrem e que muitas vezes são esquecidos, causando problemas maiores, necessitando de tratamentos psicológicos pelo resto da vida.
 
Amar a Igreja não é fechar os olhos e segui-la, mas sim, compreendê-la e perceber onde podemos atuar para que ela seja realmente uma ponte de paz.
 
AV: Quando foi oficialmente publicada sua obra? A publicação foi feita por uma editora "diferente", a Corifeu, que tem facilitado a emersão de novos escritores no mundo das idéias, uma vez que publicar por ela é mais fácil. O que você pode falar sobre a editora e sobre a burocracia para publicação, se é que houve alguma? 
 
TE: Meu livro foi publicado em novembro de 2006 pela Editora Corifeu. Ela, como outras editoras semelhantes, é caminho mais fácil para se publicar um livro. Numa editora convencional a chance de ser publicado é muito pequena, eu diria quase impossível, a média de publicação é um a cada mil livros que chegam
 
Na perspectiva de que ninguém te conhece e que há outros autores que já têm livros publicados, as chances se esvaem. Agora, por uma editora comercial, como a Corifeu, o autor paga pelos serviços editoriais, como diagramação, coerção, capa etc. e se sujeita à política da editora para que seu trabalho seja publicado. Não posso dizer que não há uma burocracia, mas sim uma análise de contexto.
 
Algumas se limitam a publicar somente um gênero, o que não é o caso da Corifeu, que acolhe diversos gêneros literários. Dessa forma, novos autores podem se inserir no mundo literário e divulgar seu trabalho.

Alguns que trilharam este caminho já tiveram a chance de serem reconhecidos e chamados por uma grande editora, para, sem custos, republicarem seus trabalhos. Creio que temos que tentar o que está a nossa volta, esgotar os esforços, que todos valerão a pena.

Livro de Tiago Eurico de Lacerda  aborda problemas como abuso de poder, sexualidade e política interna na Igreja Católica.  [Fotos: Editora Corifeu]

AV: Pelo que pude perceber, sua obra tenta mostrar uma visão não ortodoxa; tanto no sentido radical dos "estudados", quanto no sentido inocente dos "menos estudados"; das relações da Igreja Católica. Melhor explicando, acredito que tem-se duas vertentes de interpretação dos atos da Igreja: uma "radical", que acusa, e outra "inocente", que defende. Sua obra seria uma segunda opção à atual situação? Podemos esperar uma outra visão, que não banalize e nem sensacionalise os atos da Igreja?

TE: Eu não diria que meu livro passe uma visão heterodoxa da Igreja, tampouco que ele acuse ou defenda, na verdade ele é um paradoxo. O que eu posso dizer é que ele é uma reflexão, ou um convite a refletir sobre um mal que nos aflige. Não exponho posições a cerca da ortodoxia, exponho problemas, que não são mistérios, tampouco segredos, o mundo os conhece.
 
Eu não aponto a Igreja como o mal, eu o afasto dela e a mostro que ele está perto. Que ele pode ser combatido. Eu não seria tão simplista dizendo que esta problemática dissolve-se em apenas uma dicotomia. Há não uma, mas várias, sucessivamente.
 
A Igreja tem uma posição e crê que ela é a certa, o que nos leva a perceber sua ortodoxia, mas essa posição pode ser contestada, o que ela não está disposta a permitir. Mas se o fizesse, perceberia que muitas coisas podem e devem mudar. Eu apontaria em meu livro não uma, mas várias visões em que sentimos falta de sua posição cumprindo uma missão espiritual.

A Igreja tem-se preocupado demasiadamente com o social, a política, o que a afasta de sua função que é religar o homem a Deus. E essa política tem sido levada acima de muitos conceitos importantes e simples: são conceitos morais, religiosos e cristãos. 

Ela deve ser política e observar o contexto social, mas não quedar-se neles, deve transcendê-los. Não creio que o que exponho possa banalizar os atos da Igreja, não creio que as pessoas estão dormindo a este ponto. Ser religioso é compreender que a Igreja que se serve é uma instituição formada por homens  que são capazes de errar, pecar e destruir. A visão que banaliza a Igreja é a visão daquele que crê cegamente sem querer mirar os erros para poder corrigi-los.

 AV: Pelo que conheço de sua história de vida, você é ex-seminarista. Não é? Qual o valor dessa experiência para sua obra? Fale-nos um pouco disso. O que você pôde aproveitar e o que mudou em sua visão de mundo, principalmente a respeito da Igreja?
 
 TE: Sim, eu vivi durante um tempo num seminário diocesano e posso dizer que não foi uma simples experiência, mas a experiência que marcou minha vida. Eu diria mais: foi um marco na minha história. Um grande legado dessa experiência eu o depositei em meu livro. Fazendo uma breve analogia, são "páginas da vida".

 Páginas que marcaram as emoções de amor e doação e também de injustiça diante de alguns pontos específicos. As pessoas que leram meu livro imediatamente me perguntaram se é verdade o que lá está; acho graça. É interessante você ouvir certas perguntas e perceber que a maioria não sabe profundamente como é a Igreja que servem. Temos um peso para ver somente o que é bom, mas esquecemos que somos humanos e o erro não pode inexistir. Nisso, percebo que somente por uma experiência tão profunda, alguém poderia escrever certas coisas; sãos as experiências que nos moldam.
 
Sempre tive muita fé, mas nunca deixei de perguntar, indagar sobre ela. Não tinha medo, [pois] esse sentimento impede muitos de caminhar na fé. Creio que medo de descobrir que o que crêem não existe ou é uma invenção, por isso é bom buscar, pesquisar e saber argumentar sobre o que você crê. 
 
 O mundo não mudou para mim, minha cosmovisão é que se expandiu. O mundo continua o mesmo, eu que abri os olhos para muitas coisas que não enxergava, não queria ver; a minha fé amadureceu juntamente com minha experiência. Percebo que a Igreja é fundamental para a paz e ela ajuda-nos como humanos a sermos mais dóceis, pessoas mais tranqüilas; precisamos disso, precisamos parar e refletir. O pior é que as pessoas pensam que o que escrevi existe somente dentro da Igreja. Esse é o grande erro. Minha obra poderia se referir a todas as instituições, seja em qual área for. Todas são formadas por homens, então errarão. Errar não é o problema, ele está em permanecer ou ignorar o erro.
 
AV: Tiago, você cursa Direito no Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, a UNILESTE-MG. Por acaso, em algum aspecto, o Direito lhe ajudou na composição da obra?

TE: O Direito sempre ajuda em ocasiões semelhantes. Na obra há alguns crimes, assassinatos. Pude estudá-los o mais próximo da realidade, e creio que logrei, porque alguns não acharam justas algumas medidas na história. Eu lhes disse: e quando que a justiça foi nossa realidade, senão ideal de vida[?]. Estudo Direito porque anseio e creio nessa justiça, mas não creio que ela cairá do céu e resolverá tudo.

AV: Sei que seu trabalho é recente, mas haveria, talvez, algum outro projeto para o futuro?

TE: Sim, com certeza. Eu sou um escritor compulsivo, sempre me encontro elaborando uma história, pensando, escrevendo. Tenho dois projetos em mãos e quero dedicar este ano a eles. Não tenho pressa, creio que a história se faz, acontece e as vezes leva tempo, mas é um tempo dedicado que me descansa, me faz bem. Um escritor ficcionista fica sempre atento, em busca de suas histórias.

AV: O que você recomenda para jovens aspirantes a escritores? Quais são as dicas que você, como estreante nesse campo, pode dar aos aspirantes?

TE: O primeiro passo para os jovens que aspiram esta vocação é dedicarem-se a leituras. Quanto mais a pessoa lê, melhor ela escreve e amplia seu vocabulário, o que é essencial para qualquer escritor ou pessoa de uma área afim. A leitura, além de nos enriquecer culturalmente, nos faz mais humanos, porque viajamos em mundos que não são os nossos, percebemos histórias que nunca quereríamos estar inseridos e  construímos nosso mundo; aprendemos caminhos, compartilhamos emoções. É bom assistir a um filme. Mas o melhor mesmo é poder ler o livro desse filme [se houver, é claro], para conhecermos as riquezas de detalhes que muitas vezes escapam às telas.
 
AV: Tiago, muito obrigado por essa entrevista à coluna "Comunicamente falando..." do Sobre Jornalismo. Que seus trabalhos rendam novas experiências e conhecimentos. Parabéns pelo livro e boa sorte!

TE: Meu caro, estou agradecido pela entrevista. Partilhar sobre todas essas experiências e sobre o fruto delas, o livro, é mais que um prazer. Espero que você tenha sucesso em sua carreira também e se torne um grande Jornalista.

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